terça-feira, 12 de outubro de 2010

pedaços pela rua

    Ela viu ele de longe. E era sempre assim que o via, sempre de longe. Ocorreria, como sempre, aquela troca de olhares tensos e os dois seguiriam seus caminhos. Como sempre.
    Mas nesse dia foi diferente, claro. Se não fosse não valeria a pena relatar.
    Ela passou em passos apressados, característicos do modo de andar dela. Ele estava sentado em um daqueles bancos laranjas nada discretos. Ela estava concentrada no assunto que estava indo resolver, e torcendo por dentro para que não visse ninguém por ali, não se sentia tão bem ali quanto há um tempo. Ele estava conversando com alguns amigos que ela também conhecia. Conhecia bem até.
    Ela continuava andando policiando-se para não olhar para o outro lado da rua, quando ouviu seu nome sendo chamado por uma voz que por muito tempo ela ouvia constantemente. Ela não olharia. Começou então a ouvir alguns sussurros, conseguia entender um pouco de alguns... parecia algum tipo de incentivo. Ouviu mais vozes chamando seu nome, mas continuou olhando para frente. E então uma voz que sempre mexera com seu consciente e com seu coração soou do outro lado da movimentada rua. Ela não ouvia mais os carros passando, um silêncio súbito inundou seu mundo naquele momento. Ela obrigou-se a virar. Ele estava parado de pé na calçada olhando para ela. Olhou para os lados, a sinaleira havia fechado. Seus pés se moveram e pisaram na rua, sua boca, porém, não se mexeu, não parecia que ele tinha algo a dizer. Ela respirou fundo, olhou para ele pela última vez e virou-se para frente novamente. Ao dar o primeiro passo, ela ouviu-o chamar seu nome de novo. A sinaleira abriu e em poucos segundos os carros invadiriam a rua e passariam por onde ele estava. Ela virou com o coração apertado, não lhe fazia bem olhar assim para ele, principalmente quando sabia que ele também a olhava. Buzinas soaram para tirá-lo do meio da rua. Ela olhou preocupada, mas logo seguiu em frente. Ele parecia querer atravessar a rua para encontrá-la, parecia agora decidido, mas o fluxo de carros estava caótico.
    Ela seguiu seu caminho. E estes foram alguns passos que, embora ela não sabia na hora, mudaram tudo dentro dela. Porque foi andando para longe dele e de seu chamado que ela finalmente resolveu não mais se preocupar com esse pedaço de seu passado, pois estava claro que havia um bom motivo para tudo isso não estar em seu futuro.

Um comentário:

  1. ooorra, esse texto aí me envolveu brucs *-*
    parece filme,rs qw

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